terça-feira, outubro 16, 2012

Valores


E a conversa foi assim:

Sentados atrás de mim, um grupo de  três ou quatro futuros executivos. Todos vestidos com variações da mesma roupa, cabelos bem cortados e sorrisos alvos. Todos bonitos, bem articulados. Stella Artois long neck em cima da mesa, por que Botequim moderno ainda não vende Paulaner

-       Eu gosto de dinheiro!
-       HAHAHAHA Pois é. Eu também, cara. Gosto muito!
-       Isso aí! Tem que assumir, gosto mesmo é de dinheiro! HAHAHA

A partir daí desenvolveu-se um papo todo muito elaborado sobre como o país iria pra frente se as pessoas gostassem de dinheiro tanto quanto eles. Depois de uns vinte minutos entre tais declarações, risadas fáceis e escárnio aos pobres diabos que não trabalhavam o suficiente a conversa foi esmorecendo.

Acho até que demorou demais. A ode ao dinheiro me parece um pouco limitada. Limitada e até deselegante. Gostar de dinheiro? Eu gosto dos meus filhos, do meu marido, das amigas, amigos, família, da gata, da cachorra.

Gosto de escrever, dar aula, aparecer (gosto muito de aparecer). Chopp gelado no seu Edgar, música na praça no domingo de manhã. Conforto material, mental, emocional. Gosto de poupança, bonança e abundancia. Gosto de linho, de luxo, de moda, de joia, do Jóia, de comida sofisticada e vinho raro.

Gosto de viagens exuberantes, tratamentos luxuriantes, spa. Terno caro e caviar. Gravata italiana, Armani, Galliano e Paris. Gosto de sauna, seda, Versace. Mas dinheiro... é tão pobre gostar de dinheiro. Eu prefiro cartão.

A conversa esmoreceu. E como tinha de ser, continuou.

-       Aaahhhh, enfim é isso. E como vai a Verônica?
-       Tsc, a Verônica é uma vadia.
-       Puts, que houve cara, terminaram?
-       Ah, nem começou direito. Tô dizendo, vadia mesmo.
-       Liga não cara, mulher é tudo assim.
-       É tudo puta

E o filósofo completa:

-       Mulher gosta é de dinheiro

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